Entre o silêncio e o Desejo o Analista encontra o seu papel

Algumas questões sempre permearam em minha mente ao longo de toda minha formação como psicóloga e, agora, no meu percurso em psicanálise, também continuam a me acompanhar. O que vem junto do ato de escutar alguém? O que está por trás disso? O que envolve esse papel de sentar-se durante horas do dia ouvindo um outro falar sobre si e seus Outros?
Em primeiro momento, o que sei é que, para que seja possível uma escuta, antes disso é preciso que haja silêncio. Fazer silencio em si. Uma das coisas que mais ecoam quando se trata do lugar de analista. Não apenas o silêncio da palavra, mas um silenciar-se de tudo que é meu. Despir-se de mim mesma. O fato de que temos que conseguir fazer com que o que é nosso, enquanto sujeito, não ecoe, para que assim seja possível escutar o outro. Escuta essa que vai muito além de apenas ouvir.
É nesse lugar de silêncio que se constrói a escuta verdadeira. Não uma escuta passiva, mas uma escuta atenta, focada no que não é dito, no que está implícito nas pausas, nos vazios entre as palavras. O silêncio cria um espaço onde o analisando pode se sentir acolhido e livre para expressar aquilo que, muitas vezes, não tem palavras ou que precisa de tempo para surgir. O silêncio do analista não é um vazio que impede a comunicação; é um espaço de potencialidade onde o desejo do analisando pode ser tocado.
Essa forma de silenciar-se, Násio em seu livro “Como trabalha um psicanalista?” marca como “silêncio-em-si”, esse momento é onde o analista faz com que seja possível o surgimento do Grande Outro. Se o analista consegue ativamente fazer esse silêncio em si, é ele quem dirige o tratamento. Se não o faz, ignora quem conduz o tratamento nesse momento.
Ao fazer silêncio, o analista permite que o campo transferencial se estabeleça e que o analisando projete suas fantasias, medos e desejos no ambiente analítico. Esse movimento, é fundamental para que se revelem aspectos dos conflitos inconscientes do sujeito, que não se expressam diretamente nas palavras, mas nas entrelinhas da sua história. A escuta atenta e atenção flutuante, aliada a esse silêncio interno, cria as condições necessárias para que o inconsciente do analisando emerja, para que venha à tona o que é mais difícil de nomear, mas essencial para o processo de análise.
Mas então, o que vem junto do ato de escutar alguém? O que está por trás disso? O que envolve esse papel de sentar-se durante horas do dia ouvindo um outro falar sobre si e seus Outros? Arrisco dizer que a análise pessoal do próprio analista é o principal fator que possibilita sustentar esse lugar. E esse espaço de silêncio, além de tornar possível o surgimento do desejo do analisando, será que também podemos colocar como o próprio desejo do analista?
Coutinho Jorge, em seu livro Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, Volume 3: A Prática Analítica, ressaltou: “Esse é um dos paradoxos da clínica psicanalítica destacados por Lacan: o fato de que o que sustenta a análise é o desejo do analista de que haja análise.”
O desejo do analista não é o desejo de ajudar, de resolver ou de guiar. Esses desejos são, em grande medida, a expressão do próprio desejo do sujeito do analista, que aqui, não deve ser exposto. O desejo do analista se coloca com um desejo de que o analisando possa, por si mesmo, encontrar seu caminho, de que o inconsciente do analisando se manifeste e se organize em sua própria dinâmica. A função do analista é, assim, não ser o centro da análise, mas aquele que possibilita a emergência do indizível no analisando. O analista ocupa a posição de sujeito suposto saber, ou seja, é aquele que o analisando supõe que saiba algo, mas que, ao não intervir com a imposição de um saber sobre o analisando, cria as condições para que ele se aproprie de seu próprio processo de simbolização. Isso implica que o analista, ao abdicar de um desejo consciente de solucionar, permite que o inconsciente do analisando se manifeste livremente, sem as interferências do desejo do sujeito do próprio analista.
“O psicanalista opera por meio do não saber, mas há algo que o psicanalista sabe — e seu desejo de psicanalista se apoia nesse saber que não é fantasístico, posto que é efeito de sua análise e do destacamento do desejo de saber inerente ao desejo do analista: ele sabe que o analisando sabe sem saber que sabe (COUTINHO, 2017)”.
Diante de tudo isso que tentei discorrer, ainda ecoam os questionamentos aqui expostos. O que posso afirmar é que para mim, por trás de tudo isso, também existe o meu desejo de ser analista. Esse desejo, embora não seja sinônimo do desejo do analista, em paralelo com a minha análise pessoal e estudos, é o que me permite ocupar o papel de analista quando necessário e também o que me sustenta em estar aqui hoje, neste momento.
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