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Entre o silêncio e o Desejo o Analista encontra o seu papel

Foto do escritor: Gabrielly Carvalho
Gabrielly Carvalho
4 de dez. de 2024
4 min de leitura


Mão se aproximando sobre uma superfície circular espelhada, criando um reflexo.

Algumas questões sempre permearam em minha mente ao longo de toda minha formação como psicóloga e, agora, no meu percurso em psicanálise, também continuam a me acompanhar. O que vem junto do ato de escutar alguém? O que está por trás disso? O que envolve esse papel de sentar-se durante horas do dia ouvindo um outro falar sobre si e seus Outros?


Em primeiro momento, o que sei é que, para que seja possível uma escuta, antes disso é preciso que haja silêncio. Fazer silencio em si. Uma das coisas que mais ecoam quando se trata do lugar de analista. Não apenas o silêncio da palavra, mas um silenciar-se de tudo que é meu. Despir-se de mim mesma. O fato de que temos que conseguir fazer com que o que é nosso, enquanto sujeito, não ecoe, para que assim seja possível escutar o outro. Escuta essa que vai muito além de apenas ouvir.


É nesse lugar de silêncio que se constrói a escuta verdadeira. Não uma escuta passiva, mas uma escuta atenta, focada no que não é dito, no que está implícito nas pausas, nos vazios entre as palavras. O silêncio cria um espaço onde o analisando pode se sentir acolhido e livre para expressar aquilo que, muitas vezes, não tem palavras ou que precisa de tempo para surgir. O silêncio do analista não é um vazio que impede a comunicação; é um espaço de potencialidade onde o desejo do analisando pode ser tocado.


Essa forma de silenciar-se, Násio em seu livro “Como trabalha um psicanalista?” marca como “silêncio-em-si”, esse momento é onde o analista faz com que seja possível o surgimento do Grande Outro. Se o analista consegue ativamente fazer esse silêncio em si, é ele quem dirige o tratamento. Se não o faz, ignora quem conduz o tratamento nesse momento.


Ao fazer silêncio, o analista permite que o campo transferencial se estabeleça e que o analisando projete suas fantasias, medos e desejos no ambiente analítico. Esse movimento, é fundamental para que se revelem aspectos dos conflitos inconscientes do sujeito, que não se expressam diretamente nas palavras, mas nas entrelinhas da sua história. A escuta atenta e atenção flutuante, aliada a esse silêncio interno, cria as condições necessárias para que o inconsciente do analisando emerja, para que venha à tona o que é mais difícil de nomear, mas essencial para o processo de análise.


Mas então, o que vem junto do ato de escutar alguém? O que está por trás disso? O que envolve esse papel de sentar-se durante horas do dia ouvindo um outro falar sobre si e seus Outros? Arrisco dizer que a análise pessoal do próprio analista é o principal fator que possibilita sustentar esse lugar. E esse espaço de silêncio, além de tornar possível o surgimento do desejo do analisando, será que também podemos colocar como o próprio desejo do analista?


Coutinho Jorge, em seu livro Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, Volume 3: A Prática Analítica, ressaltou: “Esse é um dos paradoxos da clínica psicanalítica destacados por Lacan: o fato de que o que sustenta a análise é o desejo do analista de que haja análise.”


O desejo do analista não é o desejo de ajudar, de resolver ou de guiar. Esses desejos são, em grande medida, a expressão do próprio desejo do sujeito do analista, que aqui, não deve ser exposto. O desejo do analista se coloca com um desejo de que o analisando possa, por si mesmo, encontrar seu caminho, de que o inconsciente do analisando se manifeste e se organize em sua própria dinâmica. A função do analista é, assim, não ser o centro da análise, mas aquele que possibilita a emergência do indizível no analisando. O analista ocupa a posição de sujeito suposto saber, ou seja, é aquele que o analisando supõe que saiba algo, mas que, ao não intervir com a imposição de um saber sobre o analisando, cria as condições para que ele se aproprie de seu próprio processo de simbolização. Isso implica que o analista, ao abdicar de um desejo consciente de solucionar, permite que o inconsciente do analisando se manifeste livremente, sem as interferências do desejo do sujeito do próprio analista.

“O psicanalista opera por meio do não saber, mas há algo que o psicanalista sabe — e seu desejo de psicanalista se apoia nesse saber que não é fantasístico, posto que é efeito de sua análise e do destacamento do desejo de saber inerente ao desejo do analista: ele sabe que o analisando sabe sem saber que sabe (COUTINHO, 2017)”.

Diante de tudo isso que tentei discorrer, ainda ecoam os questionamentos aqui expostos. O que posso afirmar é que para mim, por trás de tudo isso, também existe o meu desejo de ser analista. Esse desejo, embora não seja sinônimo do desejo do analista, em paralelo com a minha análise pessoal e estudos, é o que me permite ocupar o papel de analista quando necessário e também o que me sustenta em estar aqui hoje, neste momento.

 
 
 

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